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Facilidade de crédito deixa os jovens endividados
Endividamento começa cada vez mais cedo
Difusão dos cartões entre jovens facilita gastos
Tubarão - Reunião no shopping. Meia dúzia de adolescentes se encontra na praça de alimentação. Lá vão eles para as lanchonetes fast food. Carteira aberta. Notas graúdas? Trocados? Moedinhas? Que nada! O dinheiro é de plástico. Um a um, eles passam seu cartões. Débito, e crédito também. Muitos sequer guardam os comprovantes. Como na pizza, que às vezes consomem, são fatia cada vez maior das operadoras do mercado. Somos medalha de bronze no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos de da China. Bom para o consumo, e alerta para os pais. A nova "mania" pode afetar a educação dos jovens.
Segundo a Associação Brasileira de Empresas de Cartão de Crédito e Serviços (Abecs), cartões de crédito para jovens de 12 a 17 anos já representam 12% do total do mercado. E a taxa de crescimento é acelerada, na casa dos dois dígitos. Não é difícil encontrar, inclusive, pacotes exclusivos para essa faixa etária, com algumas vantagens aparentes. A principal vantagem: o controle por conta dos pais, nas duas frentes: a "mesada" pode vir em débito - até R$ 1 mil podem ser depositados na conta vinculada ao cartão - ou crédito - limites entre R$ 200 e R$ 700. O marketing é direcionado. Até a cantora canadense Avril Lavigne, febre entre os adolescentes, já anunciou ter firmado uma parceria com a Mastercard para o lançamento de um cartão com o seu nome.
A cena dos jovens fazendo lanches é a mais comum, aponta uma pesquisa feita nos grandes centros do País. "Não é a maneira mais adequada para utilizar o cartão de crédito. Ele deve servir para grandes pagamentos parcelados, onde não há desconto à vista", explica Clayton Ribeiro, consultor econômico. Eles gastam também com roupas e baladas. Depois piora.
Assim que atingem a maioridade, muitos já estão endividados. E a maioria por impulso. Sim, eles fazem valer os milhões investidos nas propagandas imediatistas, "porque a vida é o agora". É o que diz uma pesquisa realizada pela Telecheque. Do total de nomes que aparecem no Serviço de Proteção ao Crédito (SPC) no País, 6% são de menores de 21 anos. Isso sem falar nos casos em que o jovem escapa do problema porque um familiar o socorre. A pesquisa define também o perfil do jovem consumidor. Estudar não é determinante. Mas quase sempre ele está entrando no mercado de trabalho. Tem conta-salário e logo, crédito pré-aprovado no cartão e talões de cheque.
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Falta orientação financeira, diz analista
Facilidade de crédito induz ao consumo, mas, na hora de pagar, a conta às vezes não fecha
Tubarão - "O jovem sente-se pronto para consumir. Acaba se deslumbrando com a facilidade de crédito. Está ali, basta pegar" diz o consultor Cláudio Boriola. Ele defende, nacionalmente, a inclusão da matéria "educação financeira" na grade curricular. Boriola é autor do livro Paz, Saúde e Crédito (Editora Mundial), batizado pelo jornalista Paulo Henrique Amorim como "A bíblia dos endividados".
"O impulso da compra é momentâneo. Não analisa a necessidade e estimula o consumo pega os jovens em cheio. Eles precisam de educação, de orientação. Muitos não têm noção do transtorno de estar com o nome sujo", prossegue Boriola. "Além de sentir-se poderoso com uma conta no banco, o jovem é vítima das redes de varejo. Nas grandes lojas, quem define o crédito é o cliente. Com tanta facilidade, ele se torna presa fácil".
"Nos Estados Unidos e na Europa, o jovem é melhor orientado. Depois, mesmo que se endivide, o custo é baixo porque os juros são de 10 a 20% ao ano. Aqui, chegam a 200%", explica Boriola. Juros exorbitantes cobrados exatamente pela pouca exigência na hora de liberar o crédito. "A inadimplência custa caro" diz o especialista.
O efeito cascata dos juros do cartão fez o jovem Gabriel Marques, de 21 anos, entrar no SPC. Ele perdeu o emprego pouco depois de começar a equipar sua casa. Som, um guarda-roupas e uma pequena televisão começaram com dívida de cerca de R$ 1 mil. Hoje, ele deve o triplo. "Comecei a ter meu dinheiro e me empolguei", confessa.
Alguns sequer atingiram a maioridade. Mas já trabalham o dia inteiro. Compram móveis, eletrodomésticos, ajudam a sustentar sua família. Para um grupo de estudantes da rede pública de Tubarão, cartões e cheque já são rotina. "E uma tentação também" diz Cléberson da Silva, 17 anos. "Até o cartão do CPF é tentador. Tendo o nome limpo, a gente pode comprar coisas nessas lojas de departamento sem comprar renda. E com prestações a perder de vista" conta o rapaz. "Prefiro o cartão de débito, que é mais fácil de controlar", afirma.
Sua colega, Letícia Silveira, 16, não resiste às liquidações. "Às vezes a gente não tem grana, mas quer aproveitar o preço. Aí parcela, ou joga pra frente. Sabendo se organizar, dá pra levar". (Rodrigo Stüpp, correspondente)
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Orientação da família é essencial para evitar endividamento precoce
Diz uma certa propaganda que "Não basta ser pai, tem que participar". Para evitar os "tombos" no orçamento, vale a mesma regra. "Pais presentes e conscientes são essenciais para evitar o endividamento precoce" diz Reneuza Borba. Há dez anos, ela preside a Associação de Defesa das Donas de Casa, do Consumidor e da Cidadania (Adocon). Segundo a Adocon, os pais devem estimular e ensinar os jovens a programar seu orçamento. Mais que falar, dar o exemplo. "Muitos pais até estão na lista negra. É importante mostrar a importância de manter o crédito para seguir com a vida com tranqüilidade. E o mais importante, conter o imediatismo das compras", sugere. Reneuza argumenta que o orçamento pessoal é como de uma empresa. Exige controle, prioridades e objetivos.
Quatro estudantes da Escola Jovem, também de Tubarão, representam os extremos entre o real e o ideal. Suellem Corrêa, 16 anos, tem cartão de crédito e débito. "É difícil resistir às compras de roupas", confessa a adolescente, que já trabalha. "Geralmente pago à vista. Parcelo só quando as compras são mais altas, cerca de R$ 200", diz. Ela mesma ensina: "Sempre, sempre pago a parcela total, mesmo que me aperte. Os juros são absurdos", diz Suellen. A consciência vem também do dia-a-dia. Ela trabalha numa agência do Banco do Brasil. "É muito problema de inadimplência" informa.
Seu colega, Marcelo Fernandes, 21, já se complicou no orçamento. Dívidas da família o empurraram para o limite do cheque especial. Ano passado, ele recorreu a uma financeira, onde sacou R$ 600. "Uso o limite de um mês para pagar o outro", conta. Outro estudante, Luiz Inácio Corrêa, 16, não controla muito a conta. "Sempre jogo fora os comprovantes", afirma ele, que usa o muito o cartão de débito para abastecer sua moto. Bem ao contrário de Camila Ferreira, 16. "Sou muito organizada. Gasto o que posso, e anoto tudo", diz a estudante, que trabalha na Caixa Econômica Federal. (RS)(fonte: JORNAL ANOTÍCIA)
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